Em tudo e por tudo, sejamos gratos a Deus



“Após um naufrágio, o único sobrevivente agradeceu a Deus por estar vivo e ter conseguido agarrar-se aos destroços e ficar boiando. Este único sobrevivente foi parar em uma pequena ilha desabitada e fora de qualquer rota de navegação. Mas ele agradeceu novamente a Deus. Com muita dificuldade, com os restos dos destroços, ele conseguiu montar um pequeno abrigo para proteger-se do sol, da chuva, de animais e para guardar os poucos pertences. E, como sempre, agradeceu.

Nos dias seguintes, a cada alimento que conseguia caçar ou colher, agradecia. No entanto, um dia, quando voltava da busca por alimentos, encontrou seu abrigo em chamas, envolto em altas nuvens de fumaça. Terrivelmente desesperado, revoltou-se e, chorando, gritava: o pior aconteceu! Perdi tudo! Deus, por que fizeste isso comigo? Chorou muito, até adormecer profundamente. No dia seguinte, bem cedo, foi despertado pelo som de um navio que se aproximava. Viemos resgatá-lo! Disseram. Como souberam que eu estava aqui?, perguntou ele. Eles responderam: nós vimos o seu sinal de fumaça!”(Vivendo e aprendendo. Histórias para o dia a dia. Mundo e Missão).

Diz uma belíssima canção: “Graças dou por esta vida, pelo bem que revelou. Graças dou pelo futuro e por tudo o que passou. Pelas bênçãos derramadas, pela dor, pela aflição, pelas graças reveladas, graças dou pelo perdão”.
Estamos chegando ao final do ano e, olhando para trás, somos convidados, com muita humildade e confiança, a agradecer a Deus pela vida e caminhada que fizemos, mesmo com os desafios enfrentados e as derrotas humanas que passamos.

Como cristãos agradecemos com o salmista: “Como é bom agradecermos ao Senhor e cantar salmos de louvor ao Deus altíssimo. Anunciar pela manhã vossa bondade, e o vosso amor fiel, a noite inteira, ao som da lira de dez cordas e da harpa, com canto acompanhado ao som da cítara” (Sl 91/92). Talvez estejamos mais acostumados a pedir do que agradecer a Deus. Saibamos reconhecer na vida pessoal, comunitária, social e na história, a companhia de Deus, que nos sustenta, encoraja, dando-nos sentido para tudo o que vivemos; mesmo as provações, os sofrimentos, e quem sabe, as perguntas que ficaram sem as respostas imediatas.

É importante e salutar olhar também para o presente e o futuro, sabedores desta presença sempre atual e vital de Jesus Cristo que disse: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra…” (Mt 12,25-27); o nosso amigo e companheiro de caminhada (Lc 24,13-35). Precisamos ser gratos por tudo, acreditando que Deus usará nossas imperfeições e cobrirá nossas feridas com honras. Nossa gratidão a Deus por todas as coisas, até mesmo por aquilo que no momento não conseguimos entender. Precisamos crer que as tempestades em nossa vida trarão o arco-íris da vida, da esperança, da confiança de sermos sempre acolhidos e amados por Deus.

Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um Feliz e Abençoado Ano Novo a todos.

Pe. Airton Machado Gusmão

Publicado no jornal “O Minuano”






A espera do Senhor que vem!!!



“Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 36).

Neste domingo iniciamos em toda a Igreja um novo tempo litúrgico chamado de Advento, que significa vinda, chegada. Este tempo, como ensina a Igreja, forma uma grande unidade com o Natal e a Epifania porque nos permite, não somente uma profunda preparação para o Natal, mas uma bela reflexão acerca do grande dom da salvação que nos é trazido pelo menino Jesus. Por isso, o Advento é por excelência o tempo da esperança, onde os cristãos são convidados a renovar a sua fé, sua confiança no Deus da vida que veio habitar entre nós “não para condenar, mas para salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Assim, todos nós precisamos neste Advento redescobrir o verdadeiro sentido da esperança cristã que não se fundamenta numa ilusão ou realidade passageira, mas no amor de Deus que sempre nos precede e que constantemente busca o coração do ser humano.

Deste modo, a teologia litúrgica do Advento se desenvolve em duas linhas: a primeira reflete a vigilante espera pela segunda vinda do Salvador, e a segunda aponta para a perspectiva do Natal enquanto memória das promessas feitas por Deus ao povo, já cumpridas, mas ainda não plenamente. A liturgia deste domingo, portanto, se relaciona com essa vigilante espera pela segunda vinda do Salvador. A parábola contada por Jesus a respeito do homem que deixa sua casa sob os cuidados dos seus servos, não revelando a hora em que irá retornar, é um convite para que todos os cristãos enfrentem com coragem e esperança este tempo presente com a certeza de que o “Senhor vem”. Como podemos viver bem este tempo presente na certeza de que o Senhor virá no fim dos tempos?

Na verdade, o Senhor sempre nos visita buscando nos conduzir para uma situação melhor e mais plena. Diariamente o Senhor vem ao nosso encontro através da Palavra, dos Sacramentos, dos nossos irmãos, mas nem sempre estamos preparados ou atentos para reconhecê-lo e ouvi-lo. Por isso, o Advento nos recorda que sempre precisamos de mudança, de conversão, para sermos sempre fieis ao Senhor. Viver plenamente a nossa vida, com sentido e verdade, exige este constante retorno ao Senhor que nunca nos abandona. Este desejo sincero de conversão traduz o espírito deste tempo que se inicia, pois revela a confiança que Deus sempre tem na humanidade e o desejo do homem de acolher a vida eterna trazida por Cristo. Quando nos propomos a fazer o melhor de nós na família, na escola, no trabalho, o nosso coração se enche desta esperança e desta certeza para o qual fomos criados, de vivermos para sempre no amor de Deus. Assim, que Maria nos ensine a viver plenamente este tempo; deixemo-nos surpreender pela vinda diária do Senhor que sempre amplia o horizonte do nosso coração na feliz espera do dia que Ele será tudo em todos.

Façamos a nossa parte, saibamos acolher e responder ao convite de Deus. Somos convidados a preparar o Natal cristão através dos Encontros nas famílias, grupos e comunidades. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

Pe. Airton Machado Gusmão

Publicado no jornal “O Minuano”








Advento: tempo de esperançar



A vida é dinâmica e começa sempre de novo. São Gregório de Nissa afirma que “na vida cristã vamos de começo em começo, através de começos sem fim”. Re-começar contínuo, no qual nos colocamos sempre de novo em sintonia com Aquele que plenifica nossa existência, dando sentido e inspiração ao nosso modo de ser e viver.

Estamos re-começando mais um tempo litúrgico, sempre original e instigante: trata-se do Advento. É tempo de preparação, de recomeço e de continuidade.

É tempo de olhar para a frente, para o futuro. É tempo de conjugar o verbo esperançar. Para isso, é tempo de vigilância, de estar acordados e sempre alertas. Esta vigilância evangélica é diferente de medo. Não temos medo do futuro nem da nova vinda do Senhor Jesus, mas sabemos da responsabilidade que temos, ou seja, viver como filhos e filhas de Deus, no amor, na fé e na esperança.

Por que essa insistência em viver despertos, atentos e lúcidos, como nos pede o tempo do Advento? Porque, como dizia Antony de Mello, a grande tragédia da vida não é tanto aquilo que sofremos, mas aquilo que perdemos. Perdemos muitas oportunidades porque a dispersão e a distração nos acompanham sempre. E isso é justamente o que pretende a espiritualidade do Advento: despertar.

De vez em quando, deveríamos ter a coragem de deixar ressoar em nós esta pergunta: “Você vive ou simplesmente sobrevive?”; pois o perigo de viver adormecidos ou de maneira superficial nos espreita continuamente. Aqui podemos recordar um texto de Henry Thoreau que se fez famoso graças ao filme “A sociedade dos poetas mortos”: “Fui aos bosques porque queria viver em plena consciência, queria viver a fundo e extrair toda a essência da vida; eliminar tudo o que não fosse a vida, para que, quando a minha morte chegasse, eu não descobrisse que não tinha vivido”. Advento é tempo de darmo-nos conta de que somos finitos e transitórios. Não temos morada definida nesta terra e nem somos donos de nossa vida. O evangelho – o evangelista da vez – nos conta parábola de um homem que foi viajar e deixar os empregados responsáveis para cuidar de sua casa, dizendo que não saberia quando iria voltar. Assim acontece conosco. Somos apenas “caseiros”, não donos de nossa vida. Sempre devemos cuidar para que tudo esteja em dia.

Advento não é, em primeiro lugar, preparar o natal de vinte e cinco de dezembro, mas o nosso natal, a nossa vida e o nosso encontro definitivo com o Messias. E qual é a melhor maneira de se preparar? Viver bem, com alegria e responsabilidade, com humildade e esperança. Que este tempo de advento e natal nos ajude a conjugar o verbo esperançar, para que o nosso viver seja cada vez mais um grande hino à vida, à fé e ao amor.

Pe. Alex José Kloppenburg é Pároco da Igreja N. Sra do Patrocínio em Dom Pedrito.





NÃO TENHAIS MEDO!



“Ainda que eu atravesse por vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Vós, Senhor, estais comigo” (Sl 23).

Atualmente nos defrontamos com inúmeras situações de maldade e injustiças que provocam dor e sofrimento em muitas pessoas. Políticos corruptos que envergonham o nosso país, o mercado financeiro que lucra à custa da vida de tantas pessoas, as drogas que destroem tantos jovens e famílias, a violência e a disseminação da mentira; enfim, há tantas situações de maldade humana que muitas vezes não sabemos como reagir. Nestes momentos, muitos caem no pessimismo, na indiferença, no isolamento, no egoísmo, como forma de defesa diante de tanta maldade.

Mas, eis que Jesus, na liturgia da Palavra deste domingo, nos diz: “Não tenhais medo dos homens, porque não há nada de encoberto que não seja revelado, e não há nada de escondido que não seja conhecido” (Mt 10,26-33). Do que devemos ter medo realmente? Do que devemos nos guardar como discípulos do Senhor? Diante de tudo o que presenciamos no nosso país, qual é a Palavra de Deus para nós? Qual é a postura que Jesus nos pede? Desde o início da igreja os discípulos enfrentaram perseguições e tribulações por causa do Evangelho. Jesus várias vezes advertiu os apóstolos que eles iriam sofrer pelo Evangelho: “Bem aventurados sereis quando, por minha causa vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós” (Mt 5,12); ou seja, a cruz é uma realidade do discipulado, pois se quisermos ser fiéis ao Senhor não podemos fugir dela. O mal é um mistério que faz parte da existência humana.

A grande questão que a Palavra de Deus nos coloca é: como lidamos com a maldade presente no mundo? Cada um deve se perguntar: estou buscando tirar a maldade que há, primeiramente, no meu coração, na minha família, no meu trabalho…? O que estou fazendo para melhorar a vida das outras pessoas? Jesus garante que toda trapaça, toda mentira no mundo será descoberta, mesmo que não tenha uma “lava-jato” para combater os crimes de corrupção; Jesus nos afirma que a justiça e o direito prevalecerão, porque Deus conhece o que há no coração humano e guarda os justos daqueles que insistem em trilhar o caminho do mal. O grande temor que devemos ter diante da maldade no mundo é o de nos afastarmos de Deus; é nos acostumarmos com o pecado simplesmente porque as outras pessoas agem assim.

Jesus sabe que nós nos preocupamos com a nossa sobrevivência, nossa vida corporal, e isto é saudável; mas há algo para além disso, quando lutamos por um mundo mais justo, fraterno, solidário; quando dizemos “não” à tentação da violência, da discórdia, seja com palavras ou ações, estamos cuidando também do nosso interior, da nossa alma que ninguém pode matar, a não ser que permitamos: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28); e estamos realizando a nossa missão de discípulos missionários do Senhor. O medo das perseguições, a generalização da corrupção, não pode nos impedir de anunciar a Boa Nova, de anunciar a vida plena dada por Cristo; este é o grande perigo que corremos no mundo de hoje, uma vida pautada na mentira, na covardia, por não nos confrontarmos com a nossa verdade, rejeitando a nossa missão de sermos neste mundo uma voz profética e libertadora. Para superar este medo que paralisa o discípulo, Jesus nos convida a confiar em Deus que conhece o coração humano, que conhece os nossos erros, as nossas preocupações e que sempre estará conosco. Jesus promete sua presença entre os seus e, encorajados por este amor de Deus, devemos ser fieis à missão confiada por Cristo.

Parabéns a nossa Diocese de Bagé que neste domingo celebra 57 anos de criação e também pelos 50 anos da Ação Social Diocesana. Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

Pe. Airton Machado Gusmão

Publicado no jornal “O Minuano”






"A DIMENSÃO MISSIONÁRIA DA VOCAÇÃO CRISTÃ"



“(…) A alegria do Evangelho, que enche a vida da comunidade dos discípulos, é uma alegria missionária” (Papa Francisco, A alegria do Evangelho, 21). Neste IV Domingo da Páscoa (07 de maio), celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, onde o Papa sempre nos faz um convite para refletirmos sobre algum elemento essencial da nossa vocação cristã. Na mensagem deste ano intitulada:

“Impelidos pelo Espírito para a Missão”, o Papa Francisco recorda que a dimensão missionária situa-se no “âmago da própria fé”. De fato, a fé que nós recebemos pelo batismo é um dom de Deus que preenche toda a nossa existência, e, assim, impulsionados pela ação do Espírito Santo, somos chamados a ser alegres mensageiros desta Boa Nova ao mundo. Em várias passagens do Evangelho Jesus ressalta que a relação com Ele implica um envio ao mundo para anunciar o Evangelho do Reino da vida: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos (…)” (Mt 28,19); ou seja, se somos discípulos pela alegria de termos encontrado o Senhor, somos também missionários pelo desejo de que esta alegria chegue a todos os homens e mulheres feridos pelas adversidades da vida. A dimensão missionária não deve ser um programa ou projeto separado na vida dos cristãos – quando tiver tempo eu anuncio! –, mas parte integrante da sua vocação de tornar visível o amor misericordioso de Deus. Um discipulado em missão é o mandato do Senhor, porque a fé é tanto mais viva quanto mais é partilhada, transmitida.

Na mensagem, o Papa Francisco ainda ressalta que, nesta tarefa de testemunhar a alegria do Evangelho, o cristão não está sozinho, mas o Senhor caminha ao seu lado dando-lhe força e ânimo. Foi exatamente o que refletimos no domingo passado com a passagem dos discípulos de Emaús, isto é, Jesus que toma a iniciativa de caminhar com os discípulos e transforma o seu desânimo pelo escândalo da cruz, em vida nova na certeza da Ressurreição. Muitas vezes, pelas diversas adversidades e frustrações, somos tentados a construir muros em relação às pessoas ou em relação a situações que não sabemos resolver. Nestes momentos precisamos ter presente que Jesus sempre buscou o caminho do diálogo, do serviço, da escuta, do silêncio e, assim, a graça de Deus sempre encontrou uma brecha para transformar a situação por mais difícil que fosse. Na missão a nós confiada, devemos aprender do Senhor a nunca julgar, mas a percorrer o caminho, a estrada dos nossos irmãos e irmãs na fé, muitas vezes abatidos, humilhados, desanimados, dando-lhes a possibilidade de acolher a graça que vem de Deus.

Por fim, o Papa Francisco recorda que esta semente que é a graça de Deus, cresce na vida das pessoas não pelo poder ou pelo sucesso, mas pelo serviço humilde e silencioso de tantos cristãos que entenderam que é o Senhor quem faz germinar a semente do Reino de Deus: “Ele supera as nossas expectativas e surpreende-nos com a sua generosidade, fazendo germinar os frutos do nosso trabalho para além dos cálculos da eficiência humana”. (Papa Francisco). Que neste Domingo do Bom Pastor, possamos estar abertos à ação silenciosa do Espírito, este que é o fundamento e nos impulsiona para a missão.

Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.




Pe. Airton Machado Gusmão

Publicado no jornal “O Minuano”
06 e 07 de maio de 2017








"A alegria cristã"



Na alegria deste Tempo Pascal, acolhemos neste domingo, também conhecido como o domingo da misericórdia (Jo 20,19-31), a manifestação do Ressuscitado aos discípulos que se encontravam em um clima de medo e isolamento. O Ressuscitado oferece a paz e a confiança: “A paz esteja convosco”. O evangelho em seguida, como reação dos discípulos diante do Ressuscitado, afirma que: “Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor”, e agora, renovados e investidos pelo Espírito Santo, eles são enviados para anunciar a alegria e a paz, dons do Ressuscitado.

É importante lembrar para nós cristãos que o estilo alegre de vida no seguimento a Jesus e no serviço ao Reino, interpela todo o povo e assegura o crescimento contínuo da comunidade, quando diz: “E, cada dia, o Senhor acrescentava ao seu número mais pessoas (At 2,47), que aderiam à sua proposta salvífica.

A alegria, como um dos frutos do Espírito Santo (Gl 5,22-23), é a satisfação de saber-se amado incondicionalmente pelo Pai, de ser membro da família de Jesus, a Igreja, de ter a assistência permanente do Espírito Santo. Essa alegria não é aquela momentânea, fugaz, que se perde diante de qualquer contrariedade. Ela consiste num júbilo interior e espiritual, que resiste a dificuldades e sofrimentos. Manifesta-se em todo o ser, e não apenas no rosto. Não há nada de forçado nessa alegria; ela é autêntica porque tem como fonte o Ressuscitado.

O Papa Francisco fala desta alegria para todos nós: “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontraram com Jesus. Da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído. Todos os cristãos, em qualquer lugar e situação que se encontrem, estão convidados a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele. O Evangelho, em que resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria. A mensagem de Jesus é fonte de alegria: ‘Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa’(Jo 15,11). Ele promete aos seus discípulos:’Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria’(Jo 16,20)” (Evangelho da Alegria, 1-8).

Lembramos com muita gratidão a homilia do Papa Francisco na Santa Missa no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no dia 24 de julho de 2013, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, quando falava de três simples posturas que nós devemos experimentar e testemunhar: conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus e viver na alegria. Sobre a postura da alegria ele dizia o seguinte: “Queridos irmãos, se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria. O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha.

O cristão não pode ser pessimista. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos quanto Ele nos ama, o nosso coração se ‘incendiará’ de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado”.

A alegria constante, que esperamos encontrar no céu, já deve existir em nós agora. O Espírito Santo é a alegria de Deus, que já nos invade aqui. E dessa forma, não pedimos apenas pela alegria na grandeza eterna, mas também que a alegria divina já seja constante aqui nessa vida, que permaneça em nós e que não seja ofuscada pelas situações de sofrimentos e provações. Peçamos sempre ao Ressuscitado os dons da paz e da alegria para que os anunciemos e testemunhemos no nosso cotidiano, na família, na sociedade e na comunidade eclesial. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração.

Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.


Pe. Airton Machado Gusmão

Publicado no jornal “O Minuano”











"AMAR A TODOS, INCLUSIVE OS INIMIGOS"



O bispo de Saigon, François Van Thuan, que esteve preso por 13 anos, assim dialogava com o seu carcereiro que o perguntara: “O senhor nos quer bem? Quero sim. Mas nós o mantivemos preso por muitos anos, sem julgamento, sem condenação, e o senhor ainda nos quer bem? É impossível! Talvez não seja verdade! Estivemos juntos durante muitos anos e o senhor viu que é verdade, retruquei. Quando o senhor sair da prisão, não mandará os seus fiéis queimar as nossas casas e matar os nossos familiares? Não, embora os senhores queiram matar-me, eu lhes quero bem. Mas por quê? Porque Jesus me ensinou a amar a todos, também os inimigos. Se não o fizer, não sou mais digno de ser chamado de cristão. É muito bonito, mas difícil de entender” (Testemunhas da Esperança, editora Cidade Nova, 2014).
Vivemos hoje no mundo e no Brasil um clima de insegurança e medo, provocados por atitudes de maldades, injustiças, desejos de vingança e intolerância. Tudo isso muito bem pensado e divulgado pelos meios de comunicação social, principalmente a televisão e mídias digitais. No fundo, com interesses econômicos e políticos, vive-se o “olho por olho, dente por dente” ou a famosa tese do “homem lobo do homem”, criando assim um clima de terrorismo psicológico, com o medo e pânico, como instrumentos de alienação, dispersão e controle social.
A maldade não é própria do ser humano. É impossível nascermos maus, uma vez que Deus, o bem por excelência, nos criou à sua imagem. Porém, todo ser humano é potencialmente alguém que pode cometer atos ilícitos, ética e moralmente condenáveis. Ou seja, a maldade pode desenvolver raízes no coração humano.
Podemos dar-lhe hospedagem, criar condições para que ela se alastre entre nós. Jesus, dentro do contexto do Sermão da Montanha, desaprova a vingança, seja qual for seu grau de violência, substituindo-a pela lei do perdão. Pois, a novidade do Reino agora é: não se vingar, mas ceder e amar até os inimigos. Assim vivendo, diz ele: “vocês se tornarão filhos do Pai, pois ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,38-48).
Assim, neste caminho de perfeição e santidade, Ele nos apresenta o modelo: o Pai Celeste: “Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito”. A imitação de Deus, na sua perfeição ou santidade, concretiza-se no amor manifestado também ao inimigo, como um amor gratuito e desinteressado que possibilita fazer a experiência de filhos. Um amor que leva a superar o espírito de hostilidade, a vingança, o ódio e o rancor, para construir a verdadeira fraternidade. Temos muitos exemplos de que é possível este amor aos inimigos. Eis alguns: Francisco de Assis, Luther King, Gandhi, Oscar Romero, Madre Teresa de Calcutá, Helder Câmara, Irmã Doroti, Van Thuan, entre milhares de testemunhas do Reino.
O amor gratuito nos descentraliza, pois nos move a buscar o bem do outro. E nos centraliza em Deus, pois visamos ao bem dos outros. Somente quando a pessoa se sentir amada, somente quando se sentir importante aos olhos do outro, ela abandonará a maldade. Somente aquele que ama gratuitamente, tal como Deus, poderá amar os seus inimigos. É o caminho e convite para todos nós.
Por isso, é importante a gente se perguntar: meu amor é seletivo ou ele é inclusivo como o amor do Pai? Temos inimigos a perdoar e rezar por eles? Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.


Pe. Airton Machado Gusmão
Publicado no Jornal O Minuano












Pe. Alex José Kloppenburg

"Biomas brasileiros e defesa da vida"



Um Olhar de Fé:

Há pessoas que, ao despedir-se de alguém, desejam: “Deus te guarde”. Valem-se da invocação de bênção proposta por Deus a Aarão para os pais abençoarem seus filhos: “O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti. O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz” (Nm 6,24). Este texto bíblico é utilizado na liturgia da solenidade de Maria, Mãe de Deus, no dia primeiro de cada ano, e que São Francisco assumiu para abençoar a quem encontrava. Por seu infinito amor, Deus nos envolve permanentemente com sua misericórdia, como foi evidenciado no recente Jubileu Extraordinário. Por outro lado, Ele pede constantemente para que guardemos sua Palavra, sua aliança, seus mandamentos, toda a criação. E quer que nos guardemos uns aos outros.

A Campanha da Fraternidade (CF) de 2017, em seu lema, vem nos lembrar a missão que nos confia: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15), abordando o tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. É da natureza da CF, criada em 1963, ser ação evangelizadora em preparação da Páscoa, indicando ao discípulo missionário de Cristo aspectos concretos nos quais viver a conversão quaresmal, com a prática do jejum, da oração e da esmola, que são, respectivamente, esvaziamento interior, com libertação do apego aos bens para acolher a graça do Senhor; súplica para viver a fidelidade à aliança e partilha fraterna e generosa dos dons e dos bens. Por ser a CF ação evangelizadora na Quaresma, é indispensável ter sempre presente o enfoque específico dela em cada ano e a natureza permanente deste tempo litúrgico. Pela abordagem de temas sociais, a CF é também proposta a todas as pessoas de boa vontade a participar da construção de um mundo justo e solidário.

Com a reflexão sobre os biomas brasileiros e a defesa da vida, ela exorta a viver a conversão ecológica que o Papa Francisco propõe na Laudato Si, encíclica sobre o cuidado com a Casa Comum. Segundo o Papa, alguns cristãos frequentemente se omitem das preocupações pelo meio ambiente. Outros, por seu comodismo, não se decidem a mudar os seus hábitos e tornam-se incoerentes. Falta-lhes esta conversão ecológica que é viver todas as consequências do encontro com Cristo também no mundo que nos rodeia. (Texto inspirado no Texto Base da Campanha da Fraternidade e com a ajuda do padre Antonio Valentini Neto, de Erexim).







"AS BEM-AVENTURANÇAS COMO CAMINHO PARA A SANTIDADE"



A humanidade sempre cultivou a memória dos heróis e das heroínas. A principal finalidade era apresentá-los como gente capaz de práticas esportivas, culturais ou outras, além das forças humanas, para estimular os “simples mortais” a também desenvolver suas aptidões adormecidas no esquecimento ou até na preguiça.

O Prefácio da Liturgia Eucarística da Solenidade de todos os Santos, que celebramos nesta final de semana (06 de novembro), assim reza: “Festejamos hoje a cidade do céu, a Jerusalém do alto, nossa mãe, onde nossos irmãos, os santos, vos cercam e cantam eternamente o vosso louvor. Para essa cidade caminhamos pressurosos, peregrinando na penumbra da fé. Contemplamos alegres, na vossa luz, tantos membros da Igreja que nos dais como exemplo e intercessão”.

No Evangelho desta festa, Jesus vendo as multidões, apresenta o caminho, as orientações para a verdadeira felicidade, para a nossa santificação, quando diz: “Bem-aventurados os pobres em espírito; os aflitos; os mansos; os que têm fome e sede de justiça; os misericordiosos; os puros de coração; os que promovem a paz; os que são perseguidos por causa da justiça; vós injuriados e perseguidos por causa de mim” (Mt 5,1-12).

Somente Deus é Santo; porém, por graça participamos de sua santidade e nos unimos a todos os irmãos. A santidade é a vocação de toda a Igreja e de cada fiel, nos diz a Igreja (Constituição Dogmática “Lumen Gentium” – Sobre a Igreja, capítulo V). Ser santo significa pertencer fundamentalmente a Deus, em Jesus Cristo, e na sua Igreja ser batizado e viver a fé no poder do Espírito Santo. A santidade é, de fato, uma participação na vida de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, e ela contém o amor de Deus e o amor ao próximo, a obediência à vontade de Deus e o compromisso a favor de cada ser humano. Trata-se de uma vida sustentada pelo Espírito Santo, que os cristãos não cessam de invocar e receber (Rm 1,7-8.11), em especial na liturgia.

A fé nos garante que as bem-aventuranças são a melhor expressão de uma vontade inconformista, decidida a transformar a realidade. Jesus nesta declaração fala de homens e mulheres ativos que, frente a situações concretas injustas, adotam atitudes justas. E pelo fato de adotarem tais atitudes, são bem-aventurados, não desgraçados ou iludidos, segundo os critérios de muitos humanos.

Na segunda leitura desta festa ouvimos o seguinte: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,1- 3).

A solenidade de todos os santos é uma motivação para todos nós, que nos encontramos a caminho da pátria definitiva. Os santos e santas servem-nos de exemplo, intercessão e motivação, porque nos asseguram que, com a graça de Deus, é possível chegar lá.

No fundo todo ser humano busca a sua realização, pois todos queremos participar da verdadeira felicidade. Viver rumo à santidade é viver a plena realização humana. É dar um sentido à nossa vida, um sentido que nos faz ver o tempo presente com dimensões de eternidade. Quem sabe que pela graça, é chamado à plena comunhão com Deus, procura seguir o caminho das bem-aventuranças, vive em plenitude, é feliz, é santo.

Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.


Pe. Airton Machado Gusmão